Diário de bordo
NOTÍCIA DE UM NAUFRÁGIO

Um escritor retoma um romance escrito há mais de uma década e guardado na gaveta.
Relatos da lida com um texto em lapidação antes de ser publicado.

As primeiras letras sobre o naufrágio

Carta 01

2005. Pela primeira vez eu, aos 28 anos, faria uma viagem internacional. Usei boa parte das economias que havia feito com o objetivo de comprar um apartamento, propósito este que seria adiado por conta do projeto de mochilar sozinho pela Europa com o Euro a 4 para 1. Para aliviar o desembolso da poupança montada com muitas horas de reportagem em programas populares de TV e alguns bicos em projetos de comunicação, topei um terceiro turno apresentando algumas dezenas de eventos de formatura durante algumas semanas. O rosto mais ou menos conhecido da emissora terceiro lugar de audiência à época abria algumas portas, afinal de contas. 

Enfim, passagens compradas. O primeiro destino: Londres. Na bagagem de mão o livro que achei o mais adequado para me fazer entrar no universo literário do país de origem. Queria entender um pouco da ficção clássica britânica, mas mal sabia que o livro de Defoe me faria entender mais sobre mim do que a respeito dos destinos turísticos além dos meus limites. 

Achei irônico, logo no início da leitura, que o aventureiro teve pelo menos duas passagens pelo Brasil. Jamais havia tomado conhecimento disso pelas leituras anteriores de adaptações que havia feito, descompromossidamente. Naquele momento, ficando longe de casa pela primeira vez, com dinheiro contado, pensei na oposição de me interessar pelas aventuras no Brasil do protagonista. Enquanto me amedrontava com o novo que estava por vir em Londres, passei a grifar e anotar impressões da vida de Crusoé nas terras brasileiras no século XVIII. 

Por algum motivo, aquela viagem literária no universo de Defoe, ainda no avião, me fez pensar em outra viagem que fizera na minha adolescência. Possivelmente o aperto da poltrona me lembrou das noites de ida e volta que dormi em um ônibus convencional para Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. Quinze anos separavam uma jornada de outra. Aquela, a mais antiga, havia colocado em mim a dúvida mais óbvia sobre todo o fenômeno cristão que se desenvolveu ao redor de uma imagem de barro de uma santa encontrada em um rio. Ainda adolescente, brincava com a pergunta mais simples de ser feita: quem jogou aquela estátua na água? Não tive coragem de perguntar isso na excursão, tampouco para meu pai católico, ou nem mesmo na escola de freiras onde estudava na capital paranaense. Verbalizar a dúvida seria colocar em palavras um ceticismo, uma negação de qualquer possibilidade mística naquele acontecimento. De fato, a explicação espiritual nunca me convenceu. 

Uma década e meia depois de Aparecida, conhecendo a fria e chuvosa londres, brincando de turista, buscando refeições baratas para salvar dinheiro para pagar museus e deslocamentos, montei minha narrativa para o encontro da santa em Aparecida. Robinson Crusoé, em sua estada pelo Brasil, teria participação no despejo da imagem nas águas por onde navegou. 

Passei então a reunir alguns dados sobre outras imagens de santas em rios e mares do Brasil e arredores. 

As histórias são parecidas: Pescadores (ou viajantes) ao lançar uma rede no rio (ou no mar), ou ao beber água, se deparam com uma estátua sacra. São diversos casos. Analisando três ocorrências, nota-se um curto espaço de tempo entre elas: Paranaguá (PR), 1648; Belém do Pará, 1700; e Aparecida (SP), 1717.

Quem seria o responsável pelo lançamento das? A explicação estaria na crendice de que estátuas quebradas deveriam ser jogadas no mar, sob risco de mau agouro.

Ficcionalmente, busquei outras possibilidades.

Retomando leituras de infância, me deparei com “Robinson Crusoé” (1719). As aventuras do inglês apontaram uma resposta. O personagem de Daniel Defoe tem duas estadas no Brasil, onde foi dono de terras e escravos.  O contato do aventureiro com os nativos lhe despertou sentimentos sobre a fé católica, o que o faz questionar o pensamento escravocrata da época.

A partir da coincidência histórico-literária, elaborei a ideia: Robinson Crusoé fora o responsável por lançar as santas em águas brasileiras. O motivo: o amor por uma escrava e o desejo de libertá-la, nem que para isso fosse necessário fugir em um barco que iria naufragar na costa brasileira, deixando ao sabor das correntes dezenas de estátuas de santas de sua bagagem.

Isso encontra eco no momento histórico de então, quando Portugal (recém-independente da Espanha), precisava criar símbolos próprios, reforçando sua identidade. A devoção à Nossa Senhora da Conceição é fruto deste período.

Naquela primeira década deste novo século, estava mais ligado à imagens do que às palavras. Trabalhava então como repórter de TV e usava a máxima de que só era possível contar o que se podia mostrar. Não por acaso, só viria a publicar meu primeiro livro de ficção após deixar o microfone de lado. Fruto deste jeito de pensar da época, minha primeira vontade foi escrever um roteiro de filme para esta história. Registrei o argumento, passei a trabalhar – hoje confessor que sem muito afinco – em um texto para cinema que não avançou. Conversei com alguns diretores, produtores, mas a história parecia não convencer, nem mesmo a mim. Como escritor, não me sentia dono que estava tentando escrever. Era como não passar das primeiras ondas que mal molham a canela naquela oceano profundo no qual o baú do drama estava submerso.

Não era algo para ser escrito antes dos 30 anos, não por mim, pelo menos. 

2007 foi o ano em que deixei esta história inacabada na gaveta.

P.S.: dois anos depois eu publicaria o meu primeiro livro. Também fora um projeto de filme naufragado que acabou por se transformar em uma narrativa em páginas muito importante, ao menos para mim e possivelmente para a história do Circo no Brasil. 
Mais uma vez algo estava me dizendo que eu poderia ir mais longe com as palavras abandonando o peso das imagens. 

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